“The Nose” (O nariz)

May 30, 2014 by


New York, 7 de janeiro – 2014

Será que o meu nariz ainda está no lugar?
Uma vez fui ao Lincoln Center assistir a uma rara ópera russa, a qual eu acho que nunca assistiria se não fosse pelo ator, o brasileiro Paulo Szot, que estrelava o espetáculo. Era a première dele no Metropolitan Opera House e fui prestigiá-lo.

“The Nose” (O nariz)
Produção do artista sul-africano William Kentridge. Adaptação de Dmitri Shostakovich a partir de uma estória de Nicolai Gogol.

O programa de ir assistir a uma ópera qualquer que ela seja no MET já é algo singular. É realmente um espetáculo! Você se lembra da cena do filme “Moonstruck” (“O Feitiço da Lua”) em que o namorado convida Cher para ver “La Bohème”? Pois é …

O Lincoln Center passou por uma reforma completa e agora está muito melhor do que a maravilha que já era antes. Entre as novidades: iluminaram a escadaria que dá para a Columbus Avenue. Faixas de luz nos degraus anunciando a programação dos teatros e cumprimentando as pessoas em todas as línguas. O show já começa alí. Acho que qualquer um já sente alguma coisa só de subir aquelas escadas e chegar no espaço gigantesco da praça que junta os três edifícios que formam o Lincoln Center: Avery Fisher Hall, para música, a filarmônica de New York; no meio, o Metropolitan Opera House para ópera e balé; e o David H. Koch Theater, balé e teatro. No meio desta praça existe uma fonte redonda (a fonte da Cher) e agora tiraram a mureta de mármore preto que ia até ao chão e trocaram por uma lâmina fina de mármore preto (igual aos anéis de Saturno) que parece flutuar sobre o chão em volta das águas brancas dançantes. Ainda dá para sentar na mureta se o spray de água não tiver soprando na sua direção. Continua uma fonte maravilhosa, mais maravilhosa ainda! E as pessoas paracem que são atraídas para aquele “bolo”: à noite elas são moscas pretas em volta do suspiro branco. O complexo ainda tem um teatro, um restaurante com teto de grama onde você pode fazer um pic-nic no verão, e embaixo do restaurante um cineclube maravilhoso recém inaugurado. E do outro lado da rua, a escola de música e dança mais famosa na América.

O meu ingresso era muito bom pois comprei com um ano de antecedência. Sim, em Nova York é assim, se você não for o prefeito ou o diretor do teatro, você não consegue lugar bom se não comprar ingressos com muita antecedência. Décima fila na platéia, centro. Na minha frente só sentaria quem é sócio e paga muito dinheiro. Assim que me instalei no lugar eu comecei a ler o livrinho para saber da estória. Achei a estorinha meio maluca, mas qual ópera que não é? “O cara foi ao barbeiro e saiu de lá sem o nariz, que ganhou vida própria. E dali, meu caro, foi uma confusão só – o rapaz tentando resgatar o nariz na maior das aventuras. O povo achando que ele estava maluco, (ha!) e o povo todo era bem maluco. Mas que povo maluco! No final tudo acaba bem, o rapaz com o nariz de volta no seu lugar.” E cá entre nós, eu saí de lá tão confuso achando que meu nariz tinha ganhado vida própria também e fugido do meu rosto. Mas voltando ao meu assento, lí a estória e comecei a admirar mais uma vez aquele salão magnífico. Todo de “beludo germeio,” e brocados dourados. A cortina de cena não era a tradicional da Opera House mas outra que já fazia parte do cenário. Colagens de imagens e textos, tudo a ver com o que ia se passar no palco daqui a pouco. Aquela maluquice de “intelectuar”. Quando o espetáculo começou a casa estava lotada, platéia bem adulta, 60 anos pra cima ­­­(eu devia ser o mais novo) e muito bem vestida. Por que que madame põe o cabelo prá cima quando vai ao teatro? Tesourinha nelas! Entra o maestro, Pavel Smelkov, que parecia uma bicha louca. O cabelo marron-avermelhado, tipo vassourinha.
Aplausos.
E … TCHAN-TCHAN-TCHAN-TCHAN !!! A luz que saía debaixo da coxia fazia o cabelo do maestro parecer que estava pegando fogo, e dá-lhe escabelamento. Gente! Doença de nervos das brabas! Me ajeitei melhor na cadeira … Esfreguei as mãos, parecia que o negócio ia pegar fogo mêrmo! O cenário e figurinos eram uma bolação muito bem bolada, tudo muito bom. No meio do pano de fundo abriu uma “janela” e era a barbearia. A mulher do barbeiro era uma mulher muito alta, corpão escadeirudo, e em cima daquilo havia uma cabecinha. Ela parecia uma piorra invertida. Bem operística. Exagerada. E da sua boquinha de chupar ovo saía um vozeirão.
No meio da confusão me perguntei: “Cadê a música?” Aquilo não era música, eram só barulho e chiados. Eu não tenho conhecimento suficiente para apreciar música clássica ou qualquer coisa do gênero mas creio que tenho sensibilidade. E me lembrei da minha prima que mora na Alemanha e lá ela deve assistir ao do bom e do melhor, ela gosta e entende disso. Me disse que, quando criança, seu pai lhe fazia ouvir música clássica e explicava todos os intrumentos para ela, portanto o seu ouvido foi muito bem educado para perceber todos melhores nuances. Se eu tivesse esta qualidade, talvez eu teria aproveitado esta ópera melhor Fiquei devendo. Cá entre nós, o som que eu ouvia alí era uma balbúrdia, me sentí preso dentro de um táxi num engarrafamento perto da rodoviária, todo mundo gritando lá fora. O cenário e figurinos eram impecáveis, tudo correto. Muita cor beige e verde musgo, e o vermelho e o preto temperando. Muita projeção de imagens. Projeções, animações e efeitos sensacionais inspirados por aquelas coisas desconstrutivistas russas.
Enquanto a ação acontecia no palco, eu pensava: “Mas o que que faz uma pessoa, no caso o diretor, levar uma produção desta para o MET?” Eu acho que quando se tem influência e poder, se acha que se pode fazer qualquer coisa. Picasso pintava uma galinha botando ovo, e … AH! … e … Ós! … Eu sei … São gênios. E gênio pode tudo.
Bobo, eu.
As pessoas na platéia, elas riam de qualquer coisa. Será que estavam “entendiendo?” Eu não sei … pois nessas alturas eu já me considerava o mais ignorante de todos. O negócio foi de uma enfiada só. Duas horas, sem intervalo. No meio do terceiro ato, o último, eu notava que os assentos do teatro rangiam. Muitos bumbuns amassados por muito tempo. E o senhor ao meu lado tentava fazer o ser humano na fila de trás ficar quieto: “… shhhhhhh … Xiu! …” No palco a gritaria e a loucura aumentavam apoteoticamente até a catarse final.
KA-BRUMMM … !!!
Voooongo!
O nariz voltou para o rosto do Paulo e as pessoas foram embora para suas casas felizes para sempre.

Foi confuso, mas eu gostei, afinal. E saí para a rua, para a feérica noite novaiorquina … Será que o meu nariz ainda estava no lugar? … Voooon-go!

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