Natal em Nova York: A Arte em vitrines de sonho

May 30, 2014 by


New York, 12 de dezemdro – 2013

Nova York é um dos lugares mais visualmente excitantes que existe e é nesta época do ano, entre o Thanksgiving e o Reveillon, que a cidade realmente extrapola. Eu digo para todo mundo que é a melhor época para visitar a cidade. Ruas lotadas de gente, frisson no ar … Você nem precisa entrar em museus e galerias para ver Arte. As vitrines de Natal nas lojas de departamentos e butiques se transformam em galerias de Arte. Como Joãozinho Trinta dizia: “O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”. (E eu acredito que os intelectuais também gostam do “over”, secretamente). Nessas caixas de vidro o que se vê é uma overdose de luxo. Natal em Nova York não existiria se não tivéssemos estas maravilhosas exposições de sonho, assim como o floco de neve pairando no ar na esquina da Quinta Avenida com rua 57, as Rockettes no Radio City, o balé “O Quebra-Nozes” no Lincoln Center, Messias no Carnegie Hall e a árvore de Natal no Rockfeller Center. (Uma dica: a árvore de Natal do Rockfeller Center pode ser a maior e mais famosa, mas a árvore de Natal mais bonita da cidade está dentro do Metropolitan Museum of Art).

A maioria das lojas de departamentos decoram suas vitrines e tudo é igual ao Carnaval brasileiro: todo ano cada uma vem com um tema, ou vários temas. Nas vitrines da Macys — uma das mais populares: a Mangueira do “vitrinaval” ou “carnatrine” novaiorquino — , Lord & Taylor, Bloomingdales e Saks os temas são bem infantis e consequentemente atraem uma multidão de crianças trazidas pelos pais e pelas babás que formam filas gigantescas dando passinhos de formiguinha mais lentos do que filme do Antonioni nas calçadas em frente dessas lojas. Eu recomendo você dar uma de Holly Golightly (o personagem de Audrey Hepburn no filme “Bonequinha de Luxo”) e ir tomar café da manhã de madrugada no frio perambulando por estas vitrines para poder apreciar com calma.


Já as vitrines da Barneys e da Bergdorf Goodman são outro departamento. Estas são o “crème de la crème”. A Barneys cultiva um público adulto intelectualizado e é a Undios da Tijuca/Paulo Barros da estação. Já fez homenagens aos ídolos da Arte Pop, como Andy Warhol, já recriaram o toucador da Lady Gaga, e uma vez o tema era comida (“a gente quer comida, diversão e arte”), portanto, para os criadores e artistas da Barneys o céu é o limite! Dando destaque para os cozinheiros do Food Network eles colocaram os chefes Bobby Flay, Emeril Lagasse e Mario Batali em uma vitrine chamada “Os bad boys da culinária”; e Anne Burrell, Paula Deen, Ina Garten, Cat Cora, Sandra Lee, Donatella Arpaia e Anita Lo numa outra vitrine, “As garotas da comida”. Outra janela trazia figuras importantes do mundo da culinária na forma de vapores, flutuando fora de uma panela de cobre gigante. Meu conselho era: compre um croissant ou muffin na esquina e vá comendo para não sair de lá esfomeado e marchando em direção ao primeiro restaurante depois, assim como fazem as mulheres jovens executivas de Manhattan quando saem para a rua na hora de almoço. As ditas cujas são capazes de assassinar alguém com coices de estiletos Louboutin se você der bobeira e estiver empatando a pressa delas em comprar seu almoço.

Agora, se você quer escapar da realidade, sonhar e se deslumbrar vá para a esquina da Quinta Avenida com rua 58. Alí está a loja mais espetacular de Manhattan: a Bergdorf Goodman que abriu em 1928 e é a Beija-Flor do “vitrinódromo” do Natal novaiorquino. A loja feminina fica de uma lado da Quinta Avenida e a masculina do outro lado da rua. A Bergdorf Goodman fica alí perto do Plaza Hotel, da loja da Apple, na esquina da Central Park South, quer dizer, no coração da cidade.

Em 1897, L. Frank Baum, o autor do “Mágico de Oz” foi o primeiro a reconhecer as vitrines como uma entidade de moda e Arte por si só. Baum criou o jornal mensal “A vitrine para mostrar”: um jornal prático para ensinar os comerciantes e os profissionais a arte de decorar armarinhos de vitrines e interiores. Enquanto Baum ajudou a começar a magia foi o texano David Hoey, o vitrinista da Bergdorf Goodman, que trouxe o espetáculo de Natal para a situação atual. A carreira de dezessete anos de Hoey na Bergdorf é parte-produção, parte-fantasia; parte-Arte, parte-moda. “Não é uma arte comercial examinada”, explica Hoey, apesar do fato de que a decoração de vitrines sempre existiu desde o início do século XX”. A década de 1930 foi interessante porque havia um monte de surrealismo. A década de 40 foi muito patriótica por causa da Segunda Guerra Mundial. Em 1950 os enfeites foram muito bem feitos”. Não foi até meados da década de setenta, entretanto, que os vitrinistas novaiorquinos ampliaram seus horizontes e habilidades, criando vitrines ousadas e chocantes. E foi na mesma década que a idéia de decorar vitrines virou profissão para Hoey. “De alguma forma eu entendi lendo aquele jornal que as vitrines eram inspiradas pelo que estava acontecendo nas ruas”. Em Nova York, “existiram pessoas como Candy Pratts Price da Bloomingdales e Victor Hugo — discípulo da Factory de Warhol — da boutique Halston, e Robert Currie da antiga loja Henri Bendel na rua 57”, Hoey diz. “Começaram a fazer decorações polêmicas. Era como uma forma de teatro de rua”.

Eu nunca me esqueço do que aconteceu nas vitrines da loja masculina da Bergdorf Goodman no Natal de 2009 quando lançaram o filme do Wes Anderson “Fantastic Mr Fox” (O Fantástico Sr. Raposo). Aproveitando o “hype” do filme de animação baseado na estória do livro infantil de Roald Dahls a equipe da loja decorou as doze vitrines misturando as roupas da estação e peças como relógios, ternos e gravatas com os bonecos e adereços do filme. Uma loucura! Olhar para aquelas vitrines era tão bom quanto passar uma tarde saboreando as estórias da escritora Beatrix Potter. Num outro ano colocaram uma mulher sentada numa sala de jantar barroca com cascatas de chocolates e como os móveis eram de madeira, as cores marrons — chocolate + mobília — se misturavam magicamente. Na outra vitrine era tudo branco! E prata! Numa outra reproduziram uma cena de livro infantil: animaizinhos do campo, e, num corte no terreno mostravam uma toca debaixo da terra onde uma orquestra completa composta de ratinhos, castores, tatús, e etc tocava música. Era bárbaro!

“Somos figurinistas, autores de comédia, artesãos. Abrir uma vitrine para exibição parece com uma estréia. Você tem que fazer de tudo para chamar a atenção dos pedestres e ter uma audiência. É extremamente efêmero. É bem do momento. São fantasias em trânsito pela cultura, moda e pela Arte. Nós somos artistas comerciais” diz Hoey. E eu digo: são vendedores de sonhos. Neste mundo tão vasto e feito de infinitas possiblidades e faminto de Arte, cultura e diversão, as vitrines de Natal novairquinas é o tipo de arte mais democrática que existe pois qualquer um pode ver e se deliciar, e não tem que pagar ingresso. “Mendigos, desocupados, pivetes, meretrizes, loucos, profetas, esfomeados e povo da rua: tirem dos lixos deste imenso país restos de luxos… Façam suas fantasias e venham participar deste grandioso bal masque” (faixa em tripé na abertura do desfile da Beija Flor “Ratos e Urubus Larguem a Minha Fantasia”).

 

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