Vermeer no Frick

May 30, 2014 by


New York, 22 de janeiro – 2014

Se você visitou Nova York neste inverno de Polo Norte, uma das coisas que você não poderia ter deixado de fazer foi ter passado no Frick Collection para dar um alô para “a moça do brinco de pérolas”. Em holandês: Het Meisje met de Parel. (Ela é holandesa, assim como as outras moças e moços mais lindos do mundo são também holandeses). Afinal, vai ser praticamente impossível vocês dois terem a chance de se encontrarem em Manhattan novamente. Ela não mora aqui. E “o marido dela” tem um ciúme! … Pois é, ela é linda mesmo, muitas vezes referida como “a Mona Lisa do Norte” ou “a Mona Lisa holandesa” pintada (cerca de) 1665 por Johannes Vermeer. Ela passou uma temporada na cidade enquanto reformavam sua casa, a Real Galeria de Arte Mauritshuis, em Haia.

“Moça com Brinco de Pérola” fez parte de uma exposição chamada “Vermeer, Rembrandt, e Hals: Obras-primas da pintura holandesa de Mauritshuis.”

Johannes Vermeer é o segundo pintor holandês mais famoso e importante pintor barroco do século XVII (um período que é conhecido por Idade de Ouro Holandesa, devido às espantosas conquistas culturais e artísticas do país nessa época), depois de Rembrandt. Os seus quadros são admirados pelas suas cores transparentes, pelas composições inteligentes e brilhante uso da luz. Pouco se sabe da sua vida. Ele nasceu em 1632 em Delft, onde viveu e trabalhou por toda a vida. Não se sabe ao certo quem ensinou Vermeer a pintar. Sabe-se que ele tinha muitos amigos pintores, mas o seu estilo não era semelhante ao de nenhum deles. Embora Vermeer fosse um comerciante de arte, assim como seu pai, ele sempre se considerou mais como pintor. Trabalhava apenas sob comissão e produzia apenas duas ou três obras por ano. Ele pintava muuuuuuuuuito de-va-gar … não era nem o suficiente para sustentar sua esposa e 11 filhos. Alguns de seus quadros lhe foram tomados pelo padeiro poque ele não tinha dinheiro para pagar a conta! O resto foi vendido para pagar suas dívidas. Ele morreu repentinamente em 1675.

Johannes Vermeer criou apenas 45 quadros, dos quais 35 ainda existem. Em janeiro 1996, logo depois que me mudei para Nova York, a National Gallery of Art em Washington D.C. encerrava uma exposição na qual juntaram 21 obras de Vermeer. Nunca houve uma exposição assim na qual você pudesse ver tantos quadros deste pintor misterioso e raro num mesmo local. As pinturas dele pertecem a gente muito rica e intituições de máximo prestígio. As obras não têm preço. Quem quiser vender pode pedir o que quiser, o céu é o limite. Alguns proprietários têm ciúme delas e não gostam nem de pensar na idéia de emprestá-las para exposições – como o Frick Collection, que tem 3 pinturas do Vermeer na sua coleção permanente que não foram para Washington porque elas não podem sair do museu para nada. Foram necessários 4 anos para convencerem a rainha da Inglaterra a emprestar o dela para esta exposição.

Eu comprei meu bilhete de trem e embarquei para a capital Americana numa sexta feira de manhã, na esperança de ir para a Galeria no mesmo dia, afinal a exposição encerrava no domingo, dois dias depois. Quando cheguei lá a segurança me informou no meio de uma balbúrdia de gente que as senhas para entrar no museu na sexta feira já tinham acabado, e me aconselhou estar na porta dos fundos da Galeria o mais cedo possível na manhã seguinte. Pois bem, como eu estava hospedado numa “pousada” atrás do Capitólio eu levantei às 4 da manhã e depois de uma caminhada de 15 minutos, cheguei lá – e já haviam 7 pessoas esperando na fila. Uma manhã gelada com temperatura zero grau, e, para completar, chovia, fininho … fininho … fininho … um friozinho … No escuro.

A National Gallery of Art abriria às 10 horas da manhã, e naquela época eu era bem jovem, e para quem aturou ser a oitava camada de carne em frente a um palco, expremido num Maracanã abarrotado, sob um calor carioca de 55 graus centígrados (e com pessoas passando por cima da minha cabeça desmaiadas para tomar oxigênio debaixo do palco) para ver Madonna -eu pensei que eu fosse morrer-, aquilo alí parecia viável. Às 9 horas da manhã a fila dava volta no quarteirão e passava por mim novamente. Você conhece o tamanho dos quarteirões da cidade de Washington D. C.? Brasília perde!! A chuva persistia e eu não podia sentar porque tudo molhado. E frio. Frio. Eu estava com várias camadas de roupa, camiseta, camisa jeans, sweater, e mais um casaco supostamente imperméavel, mas a chuva foi implacável: penetrou camada por camada devagarinho até chegar na pele.

Enfim, às 10 horas da manhã os portões da salvação do paraíso abriram pontualmente para o alívio da multidão de loucos como eu, mas uma multidão civilizada, de gente que entrou para ver as 21 obras de Vermeer sem reclamar, caminhando calmamente como se estivéssemos numa fila de comunhão na catedral das artes. Diziam que quem olhava para as pinturas do Vermeer sentia-se imediatamente calmo, tranquilo e feliz. Embriagados, em êxtase puro! Aquela exposição em foi vista por 327 mil pessoas.

Nas pinturas de Vermeer, que é também é conhecido como o mestre da luz holandês, nota-se um forte contraste claro/escuro, isto é, luzes e sombras, característico do movimento artístico que o pintor fez parte. As cores predominantes são o azul, vermelho e dourado, o que não é aleatório. O uso de tais cores está de acordo com o período, onde houve um contato maior com o oriente, a china em especial, onde estas cores eram tradição, sendo traduzidas na Europa como requinte.

O fascínio pelas pinturas de Vermeer é tão grande que em 2003, um filme de Hollywood foi feito com o mesmo título da pintura, “Moça com Brinco de Pérola”, tendo Colin Firth como Vermeer e Scarlett Johansson como a garota da pintura. O filme retrata uma história fictícia de como o pintor Johannes Vermeer teria reproduzido seu famoso quadro de mesmo nome.

Não se conhece quem foi a modelo para a pintura.

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MoMA • A sustentável leveza da arquitetura

May 30, 2014 by


New York, 14 de janeiro – 2014

Divido com vocês uma carta que escreví para uma grande amiga minha no Brasil há um tempo atrás.

“Nova York, 25 de novembro de 2004

Angela, o Museu de Arte Moderna de Nova York reabriu! Está um escândalo!
É uma das melhores coisas que aconteceu na cidade nos últimos tempos! É o resultado da mistura de talento, criatividade, bom gosto e dinheiro. O arquiteto (japonês, claro!) Yoshio Tanigushi disse: “If you raise a lot of money, I will give you great, great architecture. But if you raise really a lot of money I will make the architecture disappear”. “Se você conseguir muito dinheiro, eu farei grande arquitetura. Mas se você realmente levantar um monte de dinheiro eu farei a arquitetura desaparecer”.

O resultado é tão minimalista que ficou barroco! Black & White. As paredes e muros são lâminas pretas e brancas, levíssimas. O espaço aumentou pois o japonês fez milagre. Tanigushi usou aquele vidro translúcido que está na moda aqui. Frank Ghery usou o meio-esverdeado nas três torres residenciais do West Village onde os artistas -Nicole Kidman, Hugh Jackman- e outros famosos -Calvin Klein- moram. Frank Gehry também usou este efeito leve do vidro translúcido em outro edifíco em Manhattan, no IAC/InterActiveCorp que é a sede da companhia do poderoso chefão Barry Diller. O prédio parece um bolo de aniversário coberto de suspiro branco derretendo sob um calor de Brasil. Fica nas margens do rio Hudson, no bairro Chelsea, e se você estiver passeando pela High-Line ao pôr-do-sol você verá um dos efeitos mais lindos de ilusão de ótica quando as cores quentes da tarde se misturam com as cores frias do prédio. Um show! Os designers da nova loja da Louis Vuitton na rua 57 com a Quinta Avenida revestiram os oito andares do prédio onde era a loja da Warner Bros. com este vidro branco e o resultado é igual ao do MoMA: tão leve que se você olhar demorado, quebra.

As paredes das galerias internas do museu flutuam pairando um centímetro acima do chão … tudo é branco e tudo flui. A arte nunca pareceu tão bonita pois o espaço não briga, não interfere, é sereno, e só sustenta. Este mesmo espaço que os curadores e diretores usaram para contar a história da arte moderna de uma maneira diferente, e, com certeza, controvertida. Já a mudaram de saída: a tela de Cézanne “The Bather” que abria a coleção antigamente dá lugar a outra: “Against the Enamel of a Background Rhythmic with Beats and Angles, Tones and Colors, Portrait of M Felix Feneon in 1890” de Paul Signac. Eles acharam que seria uma bela homenagem e fariam justiça colocando o retrato do marchand Felix Feneon abrindo a exposição.

Abre a cortina. Para polêmica.

As galerias foram projetadas de tal forma que permite a história ser contada “para frente e para os lados”. Você anda em qualquer direção e compara melhor as pinturas. O museu tem agora duas entradas, a antiga pela rua 53, e outra pela rua 54 que tem o visual que eu acho mais bonito. O prédio também ganha um instituto de pesquisa e educação, espaços maiores para ilustrações, fotografias, etc. Aumentaram os espaços dos auditórios, oficinas de formação de professores, da biblioteca e dos arquivos. E vai abrir um restaurante bacana, o “The Modern”, com menu inspirado pela Bauhaus. (!?)

Como nada é perfeito nesta vida, para mim, o novo MoMA só tem um pecado. Nos velhos tempos antes da reforma as pinturas “Water Lilies” de Monet ficavam expostas numa sala exclusiva, só delas, longe da bagunça e do barulho da Arte moderna das outras salas. Era uma “capelinha” onde eu gostava de ir para meditar e até rezar e eu me sentia tão bem lá dentro, especialmente nos raros momentos em que coincidia de não ter mais ninguém naquele espaço, só eu e as telas de Monet. Serenas. Quietas. A paz … A beleza. O isolamento enfatizava a qualidade meditativa, imersiva destas obras, que são realmente um mundo em si mesmas.

Hoje, elas estão por alí. Vocês vão vê-las com certeza. Meditar? Não sei … Para isto você vai ter que comprar uma passagem para Paris e ir para o Musée de l’Orangerie no Jardin Tuileries ver Les Nymphéas.

Como alguém disse: “o passado é lembrado através das igrejas e templos, o nosso presente vai ser lembrado através desses novos templos, os museus de arte”.

Au revoir mon ami,
Louie Vilelá.”

MoMA | The Museum of Modern Art
11 W 53rd St, New York, NY 10019 (212) 708-9400
www.moma.org/‎

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“The Nose” (O nariz)

May 30, 2014 by


New York, 7 de janeiro – 2014

Será que o meu nariz ainda está no lugar?
Uma vez fui ao Lincoln Center assistir a uma rara ópera russa, a qual eu acho que nunca assistiria se não fosse pelo ator, o brasileiro Paulo Szot, que estrelava o espetáculo. Era a première dele no Metropolitan Opera House e fui prestigiá-lo.

“The Nose” (O nariz)
Produção do artista sul-africano William Kentridge. Adaptação de Dmitri Shostakovich a partir de uma estória de Nicolai Gogol.

O programa de ir assistir a uma ópera qualquer que ela seja no MET já é algo singular. É realmente um espetáculo! Você se lembra da cena do filme “Moonstruck” (“O Feitiço da Lua”) em que o namorado convida Cher para ver “La Bohème”? Pois é …

O Lincoln Center passou por uma reforma completa e agora está muito melhor do que a maravilha que já era antes. Entre as novidades: iluminaram a escadaria que dá para a Columbus Avenue. Faixas de luz nos degraus anunciando a programação dos teatros e cumprimentando as pessoas em todas as línguas. O show já começa alí. Acho que qualquer um já sente alguma coisa só de subir aquelas escadas e chegar no espaço gigantesco da praça que junta os três edifícios que formam o Lincoln Center: Avery Fisher Hall, para música, a filarmônica de New York; no meio, o Metropolitan Opera House para ópera e balé; e o David H. Koch Theater, balé e teatro. No meio desta praça existe uma fonte redonda (a fonte da Cher) e agora tiraram a mureta de mármore preto que ia até ao chão e trocaram por uma lâmina fina de mármore preto (igual aos anéis de Saturno) que parece flutuar sobre o chão em volta das águas brancas dançantes. Ainda dá para sentar na mureta se o spray de água não tiver soprando na sua direção. Continua uma fonte maravilhosa, mais maravilhosa ainda! E as pessoas paracem que são atraídas para aquele “bolo”: à noite elas são moscas pretas em volta do suspiro branco. O complexo ainda tem um teatro, um restaurante com teto de grama onde você pode fazer um pic-nic no verão, e embaixo do restaurante um cineclube maravilhoso recém inaugurado. E do outro lado da rua, a escola de música e dança mais famosa na América.

O meu ingresso era muito bom pois comprei com um ano de antecedência. Sim, em Nova York é assim, se você não for o prefeito ou o diretor do teatro, você não consegue lugar bom se não comprar ingressos com muita antecedência. Décima fila na platéia, centro. Na minha frente só sentaria quem é sócio e paga muito dinheiro. Assim que me instalei no lugar eu comecei a ler o livrinho para saber da estória. Achei a estorinha meio maluca, mas qual ópera que não é? “O cara foi ao barbeiro e saiu de lá sem o nariz, que ganhou vida própria. E dali, meu caro, foi uma confusão só – o rapaz tentando resgatar o nariz na maior das aventuras. O povo achando que ele estava maluco, (ha!) e o povo todo era bem maluco. Mas que povo maluco! No final tudo acaba bem, o rapaz com o nariz de volta no seu lugar.” E cá entre nós, eu saí de lá tão confuso achando que meu nariz tinha ganhado vida própria também e fugido do meu rosto. Mas voltando ao meu assento, lí a estória e comecei a admirar mais uma vez aquele salão magnífico. Todo de “beludo germeio,” e brocados dourados. A cortina de cena não era a tradicional da Opera House mas outra que já fazia parte do cenário. Colagens de imagens e textos, tudo a ver com o que ia se passar no palco daqui a pouco. Aquela maluquice de “intelectuar”. Quando o espetáculo começou a casa estava lotada, platéia bem adulta, 60 anos pra cima ­­­(eu devia ser o mais novo) e muito bem vestida. Por que que madame põe o cabelo prá cima quando vai ao teatro? Tesourinha nelas! Entra o maestro, Pavel Smelkov, que parecia uma bicha louca. O cabelo marron-avermelhado, tipo vassourinha.
Aplausos.
E … TCHAN-TCHAN-TCHAN-TCHAN !!! A luz que saía debaixo da coxia fazia o cabelo do maestro parecer que estava pegando fogo, e dá-lhe escabelamento. Gente! Doença de nervos das brabas! Me ajeitei melhor na cadeira … Esfreguei as mãos, parecia que o negócio ia pegar fogo mêrmo! O cenário e figurinos eram uma bolação muito bem bolada, tudo muito bom. No meio do pano de fundo abriu uma “janela” e era a barbearia. A mulher do barbeiro era uma mulher muito alta, corpão escadeirudo, e em cima daquilo havia uma cabecinha. Ela parecia uma piorra invertida. Bem operística. Exagerada. E da sua boquinha de chupar ovo saía um vozeirão.
No meio da confusão me perguntei: “Cadê a música?” Aquilo não era música, eram só barulho e chiados. Eu não tenho conhecimento suficiente para apreciar música clássica ou qualquer coisa do gênero mas creio que tenho sensibilidade. E me lembrei da minha prima que mora na Alemanha e lá ela deve assistir ao do bom e do melhor, ela gosta e entende disso. Me disse que, quando criança, seu pai lhe fazia ouvir música clássica e explicava todos os intrumentos para ela, portanto o seu ouvido foi muito bem educado para perceber todos melhores nuances. Se eu tivesse esta qualidade, talvez eu teria aproveitado esta ópera melhor Fiquei devendo. Cá entre nós, o som que eu ouvia alí era uma balbúrdia, me sentí preso dentro de um táxi num engarrafamento perto da rodoviária, todo mundo gritando lá fora. O cenário e figurinos eram impecáveis, tudo correto. Muita cor beige e verde musgo, e o vermelho e o preto temperando. Muita projeção de imagens. Projeções, animações e efeitos sensacionais inspirados por aquelas coisas desconstrutivistas russas.
Enquanto a ação acontecia no palco, eu pensava: “Mas o que que faz uma pessoa, no caso o diretor, levar uma produção desta para o MET?” Eu acho que quando se tem influência e poder, se acha que se pode fazer qualquer coisa. Picasso pintava uma galinha botando ovo, e … AH! … e … Ós! … Eu sei … São gênios. E gênio pode tudo.
Bobo, eu.
As pessoas na platéia, elas riam de qualquer coisa. Será que estavam “entendiendo?” Eu não sei … pois nessas alturas eu já me considerava o mais ignorante de todos. O negócio foi de uma enfiada só. Duas horas, sem intervalo. No meio do terceiro ato, o último, eu notava que os assentos do teatro rangiam. Muitos bumbuns amassados por muito tempo. E o senhor ao meu lado tentava fazer o ser humano na fila de trás ficar quieto: “… shhhhhhh … Xiu! …” No palco a gritaria e a loucura aumentavam apoteoticamente até a catarse final.
KA-BRUMMM … !!!
Voooongo!
O nariz voltou para o rosto do Paulo e as pessoas foram embora para suas casas felizes para sempre.

Foi confuso, mas eu gostei, afinal. E saí para a rua, para a feérica noite novaiorquina … Será que o meu nariz ainda estava no lugar? … Voooon-go!

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A volta das academias de Arte

May 30, 2014 by


New York, 01 de janeiro – 2014

Na última vez que visitei a Pinacoteca do Estado de São Paulo eu ví uma exposição maravilhosa chamada “O nu além das Academias”. A curadora daquela exposição, Ana Paula Nascimento, escreveu: “No ensino acadêmico, o corpo humano pode ser visto como o cento simbólico e iconográfico, talvez o tema central da arte de cunho figurativo. O conhecimento do corpo e sua exata representação foram, ao menos desde o Renascimento, considerados aspectos primordiais na formação de qualquer artista, apreendidos principalmente a partir das aulas de modelo-vivo. Apenas depois de dominar completamente a representação do corpo o artista estaria apto a conceber obras de todos so gêneros, desde a pintura de história, de mitologia e religiosa, passando pelo retrato, as cenas de gênero, as paisagens e, por fim, as naturezas-mortas. Assim, grosso modo, em todas as épocas, o corpo tem sido tema da Arte.”

Com o Renascimento, o impacto da nova forma democrática de pensar do Iluminismo em conjunto com uma formação clássica incomparável acionaram o maior período de criatividade que as belas artes já tinha visto. Mais tarde os impressionistas pariram a chamada arte moderna que se expandiu para tudo o que é chamado de Arte hoje em dia. Desde então muitos acreditavam que a pintura realista foi substituída pela fotografia. De uma certa maneira, foi mesmo, na área de propaganda e marketing. Depois disseram que a própria ARTE havia morrido. A arte tornou-se “arte sobre a arte” e não arte sobre a vida. Atualmente existe uma marginalização da arte realista, portanto, da pintura acadêmica pelo estabelecimento o que me faz acreditar que a arte realista hoje em dia é a arte de vanguarda, quer dizer, o círculo da evolução da arte como a gente a conhecia se fechou e o processo está começando de novo. Há muitos anos atrás, ao mesmo tempo em que a arte moderna quebrava as convenções da arte acadêmica, considerada arcaica, uma turma de pintores continuava a fazer seu trabalho realista. Muitos destes pintores eram influenciados por artistas americanos mais velhos como Thomas Eakins, Mary Cassatt, John Singer Sargent, James McNeill Whistler, Winslow Homer, Childe Hassam, J. Alden Weir, e William Merritt Chase. No entanto, eles estavam interessados na criação de obras novas e mais urbanas que refletia a vida da cidade e uma população que era mais urbana do que rural na América do novo século. A intenção destes novos artistas era mostrar a verdadeira realidade do início do século XX, o que você pode notar nas pinturas de George Bellows, Robert Henri, Everett Shinn, George Benjamin Luks, William Glackens, John Sloan, Ernest Lawson, Maurice Prendergast, Arthur B. Davies, e Edward Hopper.

Hoje existe uma revolução artística —um novo Renascimento— que ainda está à margem do mercado. Há uma procura pelo ensino de arte clássica nos moldes dos ateliers franceses do final do século XIX, com ênfase em desenho tradicional com modelo-vivo, pintura e escultura. O processo de aprendizado começa com os estudantes desenhando e passando à pintura na medida em que sua habilidade progride. Eu conheço artistas que me dizem que estudar nos anos 50 e 60 era muito frustrante. Dos anos 50 até recentemente, se alguém se matriculasse numa escola de arte o que esta pessoa iria aprender? O estudo de arte figurativa com modelo-vivo foi quase abolido das escolas. Felizmente esta não é a mentalidade da nova geração. Isto está acontecendo nos Estados Unidos e no mundo todo. Academias e ateliers de arte estão “pipocando” por toda a América e na Europa também, inclusive no Brasil.

Antes dessa “nova onda” era difícil encontrar escolas de arte de ensino acadêmico do tipo da The Art Student League, em Manhattan. Fundada em 1875 por artistas e para artistas, esta escola tem sido fundamental na continuação e tradição do ensino das Belas-Artes. Hoje, mais de 2.500 alunos de todas as idades, origens e níveis, estudam na ASL.
http://www.theartstudentsleague.org/
Em Nova York, como exemplos destes novos estabelecimentos além da ASL, eu sito principalmente:
• Water Street Atelier, mais tarde chamado Grand Central Academy, em Nova York. Fundado por Jacob Collins.
http://www.grandcentralacademy.org/
• New York Academy of Art
http://www.nyaa.edu/nyaa/index.html
Perto de Nova York:
• Studio Incamminati na Filadélfia.
Fundado em 2002 pelo artista Nelson Shanks.
http://www.studioincamminati.org/
• Ani Art Academy Waichulis and Ani Art Academies International
http://aniwaichulis.com/
• Workshops com Daniel Greene
http://www.danielgreeneartist.com/workshops.htm

Existem grupos de pintores também como os The Putney Painters influenciados pelo artista Richard Schmid
http://www.villageartsofputney.com/The_Putney_Painters.html;
e pintores como David Leffel e Burt Silverman que desenvolvem um trabalho magnífico de pintura realista e influenciam a nova geração. Da turma mais nova eu cito os pintores Jeremy Lipking, Daniel James Keys, Daniel Sprick, Scott Burdick, David Kassan, só para mencionar alguns deles. São muitos.

E só para ilustrar o que que está acontecendo no mundo e para reforçar que este movimento é definitivo, o estilista americano Ralph Lauren anunciou planos recentemente para restaurar a famosa L’École Nationale Supérieure des Beaux-Arts em Paris (onde tudo começou). A escola passará por uma renovação de dois anos, estima-se que serão gastos mais de 30 milhões de dólares. Especificamente, a Ralph Lauren Corporation se comprometeu a restaurar o Amphithéâtre histórico no coração da Academia que tem 365 anos. O teatro novo vai ser equipado com assentos de estádio e a mais recente tecnologia audiovisual. O site da escola também verá uma reformulação profunda, com acesso mais abrangente on-line aos arquivos de pintura e estatuária. A Academia, por séculos, desempenhou um papel fundamental na educação de artistas dos mais importantes — incluindo, mais recentemente, dos estilistas Hubert de Givenchy e Valentino. Fundada por Louis XIV, a escola foi originalmente alojada dentro do Musée du Louvre, mas agora está situada no coração de Saint-Germain-des-Prés.
http://www.beauxartsparis.com/l-ecole

Eu nunca me esquecí da primeira aula de modelo-vivo no Parque Lage, Rio de Janeiro. Era realmente algo novo para mim ver aquele corpo sobre uma plataforma parecendo uma estátua viva. Mais tarde quando fui estudar no Pratt Institute em Nova York a primeira aula que eu tive foi também de modelo-vivo. O tema da aula era trabalhar com massas, como aprender a ver, resolver e transpor para a tela ou papel as grandes massas do corpo humano. A professora Meri Bourgard trouxe para a sala de aula uma modelo chamada Viva, uma mulher IMENSA (Wilza Carla perdia!) Eu estava procurando um bom ângulo para poder começar e fui lá atrás da sala onde meu amigo Joe estava com uma cara de interrogação olhando para o traseiro da modelo e eu disse: “Joe, vamos lá para o outro lado. A moça tem um rosto bonito”. E ele: “Não Luiz, tem muita coisa acontecendo daquele ângulo!” Depois Viva me disse que o retrato que fiz a mostrava digna, parecendo com sua mãe.

Feliz 2014 para todos vocês, leitores! Está sendo um prazer e alegria dividir informações sobre Arte aqui no BLOG! Cheers!

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I LOVE NY

May 30, 2014 by


New York, 25 de dezemdro – 2013


Difícil não se apaixonar por Nova York!
Existem mil e uma razões, e muito mais … infinitas!
Para simplificar eu comento aqui 10 razões para gostar da cidade neste momento pois tudo pode mudar amanhã.
Quais são as suas?

• 1 – No topo da minha lista: o Chrysler Building.
O Chrysler foi concebido pelo arquiteto William Van Alen e a obra começou em 1928. O edifício era o mais alto do mundo até ser superado pelo Empire State Building. Mas ainda é o prédio de tijolos mais alto do mundo. Uma das primeiras construções a usar aço inoxidável na fachada é a epítome do estilo Art Deco. Em 1987 o diretor de cinema Ridley Scott nos deu de presente na abertura do filme “Perigo na Noite” (“Someone To Watch Over Me”) uma panorama em que a câmera namora o Chrysler Building no voo noturno mais glamouroso já visto do skyline da cidade, enquanto o cantor Sting sussurra a canção de George Gershwin. Assista aqui:

• 2 – Eileen’s (Special) Cheesecake
O melhor quitute novaiorquino. Se você visitar a cidade e não provar uma “cheesecake”a sua viagem não valeu! E se for provar, procure esta lojinha no número 17 Cleveland Place (Na Lafayette Street com Spring Street – SOHO/NOLITA – fone: (212) 966-5585) e, cuidado! Se você caminhar muito rápido você poderá passar por ela sem percebê-la. Antes de entrar nesse mimo deixe a sua consciência na rua para comer quantas “cheesecakes” quiser. Encontra-se vários tamanhos e vários sabores de cobertura e a minha preferida é a individual do tamanho de uma empadinha, clássica (“plain”), sem cobertura.
http://www.eileenscheesecake.com/
• 3 – Frick Collection
Se fosse preciso escolher um museu para ver Arte em Nova York a minha opção seria o Frick que pertenceu a um milionário americano que morava numa mansão magnífica na Quinta Avenida em frente ao Central Park cheia das melhores obras de arte do mundo (só de visitar a casa já vale à pena). O museu abriga três quadros do pintor Vermeer, vários Rembrandt, Velásquez e etc… Eu digo que é passeio obrigatório. E você consegue ver tudo em menos de duas horas. Para qualquer pessoa, mesmo para quem não é aficionado em Arte.
http://www.frick.org
• 4 – Brooklyn Heights & Carroll Gardens
Você se lembra de uma cena de cinema, Loretta Castorini (Cher) de salto estileto chutando latas na rua, voltando para casa de madrugada depois de uma noitada, iluminada por uma lua gigante e o World Trade Center lá no fundo da cena? Pois é, bons tempos… quando não havia ainda os grandes bancos em todas as esquinas da cidade e nem o Starbucks. O filme “O Feitiço da Lua” (“Moonstruck”) dirigido por Norman Jewison foi filmado nesta vizinhança que fica no bairro do Brooklyn, debruçada sobre o East River, com uma vista de cartão postal para o centro da cidade em Manhattan. Procure o parque chamado Promenade para a melhor vista. As duas torres gêmeas não estão mais lá mas a ponte do Brooklyn continua majestosa enfeitando o visual. Aproveite para andar pelas ruas charmosas, tranquilas e arborizadas passando pelas lindas casas geminadas. Quem sabe você vai encontrar a padaria de Ronny Cammareri (Nicolas Cage) e se apaixonar por ele também? Se for em noite de lua cheia então… ! A “Cosmo’s Moon” vai fazer você uivar de paixão! Confira aqui neste segmento do filme:

• 5 – As vitrines de Natal da loja Bergdorf Goodman na Quinta Avenida com rua 58.
Leia mais sobre elas na penúltima matéria que escreví para este BLOG, há duas semanas atrás.
• 6 – Andy Warhol.

Todos nós sabemos que Andy Warhol (1928-1987) foi um enigma. Eu sempre fui mais fascinado por sua “persona” do que pela Arte que ele criou. O profeta da Arte Pop disse uma vez: “Sucesso é ter um emprego em Nova York” … “Well,” até Jackie O. trabalhou em Manhattan! Mais tarde ele sapecou outra frase: “No futuro todo mundo será famoso por 15 minutos” (Hello, You Tube! • Hello, Facebook!) Warhol era um apaixonado pela cidade e se sentia mal quando tinha que deixá-la por qualquer motivo. Eu também sentí o mesmo na primeira vez que saí da cidade depois de ter mudado para cá e ví suas luzes desaparecerem na escuridão da noite da janela do avião. Gulp!
• 7 – Lincoln Center.
Não existe melhor lugar no mundo para assistir a balés, óperas, teatro, shows e música clássica. Ter um beijo roubado na fonte negra de águas brancas dançantes. E bailar ao ar livre nas noites de verão.
• 8 – O Central Parque no verão.
O pulmão verde mais lindo que existe!
• 9 – Porque é a cidade que nunca dorme, não pára nunca. O que pode ser o nirvana para uns, mas um pesadelo para outros.
• 10 – Woody Allen.
Ele adora Nova York exageradamente e os filmes dele – como “Manhattan” – me fizeram apaixonar por ela e mais tarde mudar para a cidade. Nova York era a sua, a minha cidade, e para sempre seria!
Veja aqui:

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The King Cole Bar and Salon

May 30, 2014 by


New York, 20 de dezemdro – 2013

Você precisa escapar um pouco do frio de Polo Norte das ruas de Nova York em dezembro? Ou relaxar no final do dia depois das andanças das compras enquanto contempla uma das pinturas mais sensacionais da cidade? … mas por favor, não leve as sacolas! Não pense duas vezes; siga direto para o King Cole Bar que acabou de passar por uma reforma e é —para mim— o bar mais bonito da cidade. Para chegar até lá, na esquina da Quinta Avenida com rua 55, você vai passar por porteiros de fraque e cartola que graciosamente vão abrir os portões dourados do paraíso para você. O endereço, o Hotel St Regis, é um clássico onde já morou o pintor surrealista Salvador Dali além de outras celebridades; nas festas de Dali ele entretia os convidados com lagosta mas não me peça para descrever o ritual aqui … Atravesse o lobby do hotel e vire à esquerda passando por salas suntuosas onde vão estar sentados a “nata” da cidade. Continue em frente e você vai ficar maravilhado com o salão que vem logo depois e serve um dos chás da tarde mais concorridos de Nova York. Lá no fundo, está a entrada deste bar elegante. O lugar é pequeno e de certo modo aconchegante. O balcão do bar ocupa o centro do ambiente ladeado por duas áreas com sofás, poltronas e mesas.

Existem dois motivos para você estar aqui: o “drink” Bloody Mary que eles preparam, e o painel pintado por Maxwell Parrish que ocupa toda a parede ao fundo do bar. São seis receitas de Bloody Mary, e o King Cole bar diz que esta bebida apimentada, forte e irresistível foi inventada lá. O nome original é Red Snapper e aqui segue a receita:
• 1 dose de vodka, a Belvedere, que foi lançada em 1996 e é considerada uma das melhores, atualmente
• 2 doses de suco de tomate
• 1 colher de suco de limão
• 2 pitadas de sal
• 2 pitadas de pimenta-do-reino
• 2 pitadas de pimenta caiena
• 3 colheres de molho de Worcestershire
No King Cole bar eles não colocam o talo de salsão para enfeitar a bebida. Ela vem com uma fatia de limão amarelo, ou uma azeitona.

Eu tenho que tomar um pelo menos uma vez por ano do contrário eu fico com a consciência pesada achando que não irei mais para o céu. Dizem que uma noitada num bar fica muito mais divertida quando alguém paga a sua conta e foi exatamente isso que aconteceu comigo e mais três amigos (um deles era um paulista visitando a cidade no final daquele ano). Estávamos os quatro no balcão e o lugar estava lotado, então ficamos dois em pé e dois sentados. Um dos amigos que ocupava um dos tamboretes e é extremamente educado cedeu o seu lugar para uma senhora que chegou de casaco de pele e coberta de jóias, ela era uma árvore de Natal ambulante. Esta senhora era baixinha —a cara da Elizabeth Taylor— e eu acho que meu amigo pensou o mesmo que eu, se ela ficasse em pé ficaria brincando de esconde-esconde por entre as pernas dos executivos de terno. Depois de alguma insistência nossa ela se ajeitou em cima do tamborete e foi logo dizendo ao garçon que era para botar a nossa próxima rodada de drinks na conta dela. E foi uma diversão saber da estória dessa mulher que também morava em cima, no Hotel St Regis. Entre whiskeys e vodkas fomos convidados para futuras festas na casa dela em Palm Beach, Florida, por exemplo. E a conversa rolou solta. No final, quando pedimos a conta descobrimos que ela tinha pago tudo e dado 100 dólares de gorjeta para o garçon. Coisas de Nova York. Este bar foi aberto em 1948. O mural, intitulado Old King Cole, foi encomendado em 1906 pelo Coronel John Jacob Astor, dono do Hotel St Regis, para outro hotel dele na rua 42, o Knickerbocker. Astor contratou o pintor Maxwell Parrish para pintar uma ventosidade anal que pode ser ruidosa ou não e tem um cheiro fétido. Isso mesmo, ele queria que o pintor pintasse um pum! Parrish eventualmente concordou pela enorme quantia de 5 mil dólares. O quadro retrata o rei Cole, um velhote feliz, sentado no trono com dois pagens de cada lado com as mãos no nariz fazendo cara feia, e alguns músicos ao redor. Três painéis de aproximadamente 2.5 de altura por 3 metros de largura compõem o mural. No entanto, o Knickerbocker teve vida curta e o mural pulou de galho em galho por toda a cidade antes de chegar no seu destino final em 1932. No primeiro ano do bar, apenas homens podiam desfrutar do ambiente luxuoso. Finalmente, em 1950, as mulheres se juntaram à folia sob o olhar atento do velho rei. Por décadas, Old King Cole vem deliciando a sua clientela que vai de Salvador Dali ao casal Marilyn Monroe e Joe DiMaggio, passando por Ernest Hemingway, Marlene Dietrich e Babe Paley. John Lennon e Yoko moraram no Hotel St Regis antes de se mudarem para o edifíco Dakota. O bar foi destaque em vários filmes, incluindo “O Diabo Veste Prada”, “Hannah e suas irmãs”, “A Era do Rádio” e “O Clube das Desquitadas”. Este bar tem sido palco de muitos eventos importantes, com destaque para o nascimento da bebida Red Snapper em 1934. (As más línguas dizem que o Red Snapper foi inventado no Harry’s New York Bar em Paris e mais tarde se transformou no Bloody Mary servido pelo Old King Cole bar). Em 2007 gastram 100 mil dólares para trazer de volta o esplendor original à esta incrível obra-prima.

PS: Ah! O bar também serve castanhas de caju do Brasil.

King Cole Bar
2 East 55th Street New York, NY (212) 339-6857
http://kingcolebar.com/
Não entra tênis e shorts após as 17 horas.
Proibido usar chapéus.

 

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Natal em Nova York: A Arte em vitrines de sonho

May 30, 2014 by


New York, 12 de dezemdro – 2013

Nova York é um dos lugares mais visualmente excitantes que existe e é nesta época do ano, entre o Thanksgiving e o Reveillon, que a cidade realmente extrapola. Eu digo para todo mundo que é a melhor época para visitar a cidade. Ruas lotadas de gente, frisson no ar … Você nem precisa entrar em museus e galerias para ver Arte. As vitrines de Natal nas lojas de departamentos e butiques se transformam em galerias de Arte. Como Joãozinho Trinta dizia: “O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”. (E eu acredito que os intelectuais também gostam do “over”, secretamente). Nessas caixas de vidro o que se vê é uma overdose de luxo. Natal em Nova York não existiria se não tivéssemos estas maravilhosas exposições de sonho, assim como o floco de neve pairando no ar na esquina da Quinta Avenida com rua 57, as Rockettes no Radio City, o balé “O Quebra-Nozes” no Lincoln Center, Messias no Carnegie Hall e a árvore de Natal no Rockfeller Center. (Uma dica: a árvore de Natal do Rockfeller Center pode ser a maior e mais famosa, mas a árvore de Natal mais bonita da cidade está dentro do Metropolitan Museum of Art).

A maioria das lojas de departamentos decoram suas vitrines e tudo é igual ao Carnaval brasileiro: todo ano cada uma vem com um tema, ou vários temas. Nas vitrines da Macys — uma das mais populares: a Mangueira do “vitrinaval” ou “carnatrine” novaiorquino — , Lord & Taylor, Bloomingdales e Saks os temas são bem infantis e consequentemente atraem uma multidão de crianças trazidas pelos pais e pelas babás que formam filas gigantescas dando passinhos de formiguinha mais lentos do que filme do Antonioni nas calçadas em frente dessas lojas. Eu recomendo você dar uma de Holly Golightly (o personagem de Audrey Hepburn no filme “Bonequinha de Luxo”) e ir tomar café da manhã de madrugada no frio perambulando por estas vitrines para poder apreciar com calma.


Já as vitrines da Barneys e da Bergdorf Goodman são outro departamento. Estas são o “crème de la crème”. A Barneys cultiva um público adulto intelectualizado e é a Undios da Tijuca/Paulo Barros da estação. Já fez homenagens aos ídolos da Arte Pop, como Andy Warhol, já recriaram o toucador da Lady Gaga, e uma vez o tema era comida (“a gente quer comida, diversão e arte”), portanto, para os criadores e artistas da Barneys o céu é o limite! Dando destaque para os cozinheiros do Food Network eles colocaram os chefes Bobby Flay, Emeril Lagasse e Mario Batali em uma vitrine chamada “Os bad boys da culinária”; e Anne Burrell, Paula Deen, Ina Garten, Cat Cora, Sandra Lee, Donatella Arpaia e Anita Lo numa outra vitrine, “As garotas da comida”. Outra janela trazia figuras importantes do mundo da culinária na forma de vapores, flutuando fora de uma panela de cobre gigante. Meu conselho era: compre um croissant ou muffin na esquina e vá comendo para não sair de lá esfomeado e marchando em direção ao primeiro restaurante depois, assim como fazem as mulheres jovens executivas de Manhattan quando saem para a rua na hora de almoço. As ditas cujas são capazes de assassinar alguém com coices de estiletos Louboutin se você der bobeira e estiver empatando a pressa delas em comprar seu almoço.

Agora, se você quer escapar da realidade, sonhar e se deslumbrar vá para a esquina da Quinta Avenida com rua 58. Alí está a loja mais espetacular de Manhattan: a Bergdorf Goodman que abriu em 1928 e é a Beija-Flor do “vitrinódromo” do Natal novaiorquino. A loja feminina fica de uma lado da Quinta Avenida e a masculina do outro lado da rua. A Bergdorf Goodman fica alí perto do Plaza Hotel, da loja da Apple, na esquina da Central Park South, quer dizer, no coração da cidade.

Em 1897, L. Frank Baum, o autor do “Mágico de Oz” foi o primeiro a reconhecer as vitrines como uma entidade de moda e Arte por si só. Baum criou o jornal mensal “A vitrine para mostrar”: um jornal prático para ensinar os comerciantes e os profissionais a arte de decorar armarinhos de vitrines e interiores. Enquanto Baum ajudou a começar a magia foi o texano David Hoey, o vitrinista da Bergdorf Goodman, que trouxe o espetáculo de Natal para a situação atual. A carreira de dezessete anos de Hoey na Bergdorf é parte-produção, parte-fantasia; parte-Arte, parte-moda. “Não é uma arte comercial examinada”, explica Hoey, apesar do fato de que a decoração de vitrines sempre existiu desde o início do século XX”. A década de 1930 foi interessante porque havia um monte de surrealismo. A década de 40 foi muito patriótica por causa da Segunda Guerra Mundial. Em 1950 os enfeites foram muito bem feitos”. Não foi até meados da década de setenta, entretanto, que os vitrinistas novaiorquinos ampliaram seus horizontes e habilidades, criando vitrines ousadas e chocantes. E foi na mesma década que a idéia de decorar vitrines virou profissão para Hoey. “De alguma forma eu entendi lendo aquele jornal que as vitrines eram inspiradas pelo que estava acontecendo nas ruas”. Em Nova York, “existiram pessoas como Candy Pratts Price da Bloomingdales e Victor Hugo — discípulo da Factory de Warhol — da boutique Halston, e Robert Currie da antiga loja Henri Bendel na rua 57”, Hoey diz. “Começaram a fazer decorações polêmicas. Era como uma forma de teatro de rua”.

Eu nunca me esqueço do que aconteceu nas vitrines da loja masculina da Bergdorf Goodman no Natal de 2009 quando lançaram o filme do Wes Anderson “Fantastic Mr Fox” (O Fantástico Sr. Raposo). Aproveitando o “hype” do filme de animação baseado na estória do livro infantil de Roald Dahls a equipe da loja decorou as doze vitrines misturando as roupas da estação e peças como relógios, ternos e gravatas com os bonecos e adereços do filme. Uma loucura! Olhar para aquelas vitrines era tão bom quanto passar uma tarde saboreando as estórias da escritora Beatrix Potter. Num outro ano colocaram uma mulher sentada numa sala de jantar barroca com cascatas de chocolates e como os móveis eram de madeira, as cores marrons — chocolate + mobília — se misturavam magicamente. Na outra vitrine era tudo branco! E prata! Numa outra reproduziram uma cena de livro infantil: animaizinhos do campo, e, num corte no terreno mostravam uma toca debaixo da terra onde uma orquestra completa composta de ratinhos, castores, tatús, e etc tocava música. Era bárbaro!

“Somos figurinistas, autores de comédia, artesãos. Abrir uma vitrine para exibição parece com uma estréia. Você tem que fazer de tudo para chamar a atenção dos pedestres e ter uma audiência. É extremamente efêmero. É bem do momento. São fantasias em trânsito pela cultura, moda e pela Arte. Nós somos artistas comerciais” diz Hoey. E eu digo: são vendedores de sonhos. Neste mundo tão vasto e feito de infinitas possiblidades e faminto de Arte, cultura e diversão, as vitrines de Natal novairquinas é o tipo de arte mais democrática que existe pois qualquer um pode ver e se deliciar, e não tem que pagar ingresso. “Mendigos, desocupados, pivetes, meretrizes, loucos, profetas, esfomeados e povo da rua: tirem dos lixos deste imenso país restos de luxos… Façam suas fantasias e venham participar deste grandioso bal masque” (faixa em tripé na abertura do desfile da Beija Flor “Ratos e Urubus Larguem a Minha Fantasia”).

 

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Al Hirschfeld – O mago criador da mais perfeita linha

May 30, 2014 by


New York, 05 de dezemdro – 2013

Existem pessoas que são a cara de Nova York. Toda cidade tem isso, Silvio Santos não é a cara de São Paulo? Hebe Camargo e Rita Lee também? Tom Jobim e Danuza Leão são a cara do Rio. Milton Nascimento é a cara de Minas. Em Nova York existem dezenas de pessoas que espelham a cidade na sua maneira de ser e consequentemente o trabalho artístico deles é inspirado pela cidade. Quer ser mais novaiorquino do que Woody Allen? Vai ser difícil. O cara nem gosta de sair da cidade.

O artista Al Hirschfeld que foi o desenhista e caricaturista mor do mundo artístico americano e principalmente da fauna dos teatros da Broadway é um desses tubarões novaiorquinos. Ele não nasceu em Nova York (nasceu em St Louis, Missouri em 1903) mas mudou muito jovem para a cidade para estudar na Art Students League of New York, que é uma das escolas de arte mais antigas da América. Ele casou duas vezes, primeiro com Dolly Haas, sua primeira mulher e famosa atriz européia. Com Dolly ele teve sua única filha chamada Nina que foi sua musa. Mais tarde ele casou com Louise Kerz que sabia tudo de teatro. Al morou na Europa (Londres e Paris) no início de sua carreira e quando voltou para os Estados Unidos ele começou a desenhar para os jornais New York Herald Tribune e The New York Times, e mais tarde para as revistas Life Magazine, Look Magazine, The New York Times Magazine, entre outras.

 O que distingue o seu traço dos outros caricaturistas é a elegância da sua linha de nanquin preto sobre o papel branco. Não era seu estilo distorcer muito o rosto dos personagens. O trabalho todo tem fluidez e é como se fosse uma brisa soprando a pena de nanquim e marcando a folha branca. A característica mais pitoresca dos desenhos é o fato de Al ter usado o nome da filha Nina para brincar com o espectador: nos seus desenhos nota-se que ele assina seu nome seguido por um número. Este número dá a dica de quantas vezes ele usou o nome da filha Nina camuflando-o no meio das linhas do desenho e é para você procurá-los. O nome apareceria no mínimo uma vez em uma manga, em um penteado ou em algum lugar escondido no fundo do desenho. Se não existe o número depois da assinatura do artista, ou o nome NINA aparece uma vez só, ou o desenho foi feito antes de ela nascer.

Al Hirschfeld retratou praticamente todos os artistas que atuaram nos musicais e peças de teatro da Broadway e também estrelas de Hollywood e outras estrelas de todo o tipo, políticos, bailarinos, músicos de jazz, música pop e rock & roll. Há dez anos atrás você podia encontrar seus desenhos originais à venda numa pequena galeria na Avenida Madison por 900 dólores. Hoje, o preço deve estar muito acima disso.

Hirschfeld morava no número 122 East da rua 95, em Manhattan. Ele morreu com 99 anos de idade de causas naturais em sua casa em 20 de janeiro de 2003.


Existe um documentário maravilhoso sobre Al Hirschfeld chamado “The Line King” – assista aqui:

Mais informações neste link:
http://www.alhirschfeld.com/index2.html

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